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<hist. 8 s. cap. 9>

<140>

Captulo 9



A Era do Populismo



  A revoluo de 1930 acabou com a Repblica Velha. Getlio 

Vargas se tornou o presidente. Seu governo marcou a histria do 

Brasil no sculo Xx.

  O Estado passou a intervir fortemente na economia. Getlio 

criou empresas estatais e estimulou o crescimento industrial. 

Em 1937, os militares apoiaram Vargas na implantao da 

ditadura do Estado Novo.

  Foi uma poca de represso ao movimento operrio (comunistas 

presos, greves proibidas, imprensa vigiada), mas tambm de 

criao de leis trabalhistas (frias, descanso semanal, salrio 

mnimo).

  A maneira de governar da Vargas foi chamada de populista. 

Houve outros governantes populistas na Amrica Latina dos Anos 

30 at os 60. Na Argentina, destacou-se o governo do presidente 

Pern (de 1943 a 1955).



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*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto: operrios homenageiam   o

  Getlio Vargas.                o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

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<141>

Os efeitos da crise de 29



  A crise mundial que comeou nos EUA em 1929 atingiu o Brasil 

em cheio. De cada 100 libras que o Brasil ganhava exportando, 

70 vinham de caf para o estrangeiro. Em outras palavras, o 

caf representava 70% das exportaes do Brasil. Mas com a 

crise de 29, o preo internacional do caf despencou. A 

economia brasileira afundou num mar to negro que parecia feito 

de caf. Muitos fazendeiros faliram, muitos empresrios se 

arruinaram.

<P>

  Voc se lembra que na Repblica Velha o presidente costumava 

ser eleito por um acordo entre as oligarquias mineira e 

paulista, a famosa {Poltica do caf com Leite}?. Pois bem, 

naquele momento terrvel de crise, o pacto entre mineiros e 

paulistas foi rompido.

  O presidente da Repblica, Washington Lus, era homem do 

Partido Republicano Paulista, o _PRP, a fora que organizava 

politicamente a oligarquia de So Paulo. Quando chegou perto 

das eleies, ele se negou a apoiar um candidato mineiro. 

Indicou o nome de Jlio Prestes, que alis nada tinha a ver com 

a Coluna Prestes.

  Em resposta, os mineiros do PRM se juntaram  oligarquia 

gacha (a terceira mais forte do pas) e formaram a _Aliana 

_Liberal para lanar a candidatura de _Getlio _Vargas a 

presidncia.      

<P>

  Getlio Vargas era filho de general e fazendeiro do Rio 

Grande do Sul. Foi militar, advogado e at mesmo ministro de 

Washington Lus. Portanto, um homem ligados s oligarquias.

  Uma parte dos fazendeiros paulistas e dos profissionais de 

classe mdia, defensores de idias polticas liberais, rompeu 

com o PRP e tambm apoiou a candidatura de Vargas. Criaram o 

Partido Democrtico.

  A candidatura de Getlio Vargas era apoiada pela Aliana 

Liberal, uma unio poltica das {oligarquias mineira, gacha e 

Paraibana} (o candidato a vice-presidente, Joo Pessoa, era da 

Paraba), somada ao Partido Democrtico de So Paulo.



<P>

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    Figura: Desenho de 1930 co-   o

  memora a liderana dos trs        o

  principais Estados que apoia-     o

  vam a Aliana Liberal getulis-   o

  ta: Minas Gerais, Rio Grande   o

  do Sul e Paraba.                o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



  A campanha eleitoral foi disputada, o que era rarssimo na 

Repblica. Getlio e seus colegas da Aliana Liberal buscaram 

apoio da populao fazendo discursos de ataque s oligarquias e 

propondo o voto secreto e a criao de leis trabalhistas. 

Tinham apoio de quase todos os que se opunham ao domnio do 

PRP, menos dos anarquistas e dos comunistas,  bvio.



<P>

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*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Foto: Com a Revoluo de       o

  30, terminava a Repblica         o

  Velha. Assumia Getlio Vargas   o

  que, apoiado pelos militares,       o

  permaneceria quinze anos na         o

  presidncia. Getlio est         o

  direita. Em p, o influente        o

  general Gis Monteiro.            o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



  O problema era que, por causa da fraude eleitoral, 

popularidade no ganhava eleio. Tanto o lado paulista de 

Jlio Prestes quanto o lado o da Aliana Liberal de Vargas 

acionaram a mquina de botar cabrestos nos eleitores e de 

falsificar o resultado das eleies. No final, ganhou quem 

manipulou mais: Jlio Prestes.

  A notcia da vitria do PRP caiu como uma ducha de gua fria 

no meio da populao. As pessoas diziam: {Mas que desgraa, no 

meio dessa crise econmica, a oligarquia paulista mais uma vez 

vai mandar no Brasil? Ser que nunca deixaremos de sustentar 

esses cafeicultores?}

  Nas cidades, a vida piorava. Muitos operrios ficaram 

desempregados. Os sindicatos se agitavam. Os comunistas 

ganhavam mais adeptos. Diante desse quadro, _Antnio _Carlos 

_Andrada, lder do PRM, declarou: {Faamos a revoluo antes 

que o povo a faa}.

  Percebeu o significado da fala dele? No fundo, o governador 

mineiro estava dizendo que era preciso {mudar o Brasil em 

alguma coisa exatamente para que os privilgios da minoria 

continuassem intocados}. Ou seja, as prprias oligarquias 

{tinham de tomar a iniciativa de mexer em alguma coisa antes 

que o povo trabalhador resolvesse mudar tudo de vez. Desse 

modo, a elite promoveria algumas reformas s para no correr o 

risco de perder o seu poder}.

<142>

<P>

  A decepo com a vitria do candidato da oligarquia paulista 

fez do Brasil uma panela de presso pronta para explodir. Nas 

grandes capitais, crescia o sentimento de oposio. Veio ento 

a tragdia. Joo Pessoa, candidato a vice-presidente na chapa 

de Getlio, foi assassinado. Na verdade, ele foi morto por uma 

questo pessoal (briga com um inimigo poltico da Paraba). 

Porm muitas pessoas acreditaram que o crime ocorrera por 

motivos polticos nacionais.

  Os lderes da Aliana Liberal aproveitaram o acontecimento 

para detonar a revolta contra o presidente Washington Lus. 

Apoiados pelo exrcito, os rebeldes liderados por Getlio 

Vargas permitiram do Rio Grande do Sul em direo ao Rio de 

Janeiro. A _Revoluo _de _30 triunfou e Getlio Vargas se 

tornou o chefe do pas. Logo que tomou posse, Vargas garantiu 

que no tinha nenhuma ambio pelo poder. S queria {colaborar 

com o Brasil}. Sua pequena {colaborao} duraria quinze anos...



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    Foto: multido comemora a     o

  vitria da Revoluo de 30.    o

  Muitos acreditavam que as oli-  o

  garquias haviam sido vencidas,   o

  mas acabaram se decepcionando.   o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



Uma revoluo?



  A maioria dos historiadores chama de revoluo a uma grande 

transformao na estrutura econmica ou na organizao do 

Estado. A revoluo faz com que o poder poltico seja 

transferido de um grupo social para outro. Por exemplo, a 

Revoluo Francesa de 1789 destruiu a estrutura econmica de 

base feudal e abriu o caminho para o desenvolvimento do 

capitalismo. Alm disso, o Estado absolutista foi destrudo e o 

poder foi transferido da aristocracia para a burguesia.

  H historiadores que contestam que a Revoluo de 1930 no 

Brasil tenha sido realmente uma revoluo. Afinal, os 

latifundirios continuaram sendo a classe social mais poderosa. 

A economia do pas continuaria por muitos anos baseada na 

agroexportao.

  Por que ento se fala em {Revoluo de 30}? Para responder a 

essa pergunta  preciso fazer outra: quem  que disse que em 

1930 houve uma revoluo? Os vencedores do movimento! Ou seja, 

os novos governantes, liderados por Getlio Vargas, queriam que 

o pas inteiro acreditasse que o Brasil estava entrando numa 

nova etapa da histria, na qual {as oligarquias foram 

derrotadas e foi construdo um Estado nacional capaz de 

promover a unio entre todas as classes sociais e todas as 

regies do pas}.

<P>

  De qualquer modo, a partir de 1930, aconteceram algumas 

mudanas significativas na sociedade brasileira. A autoridade 

do Estado foi ampliada, o governo passou a intervir fortemente 

na economia, a cafeicultura foi diminuindo sua importao 

enquanto a indstria continuava a crescer, a vida urbana foi se 

tornando cada vez mais destacada. Outra mudana notvel foi a 

preocupao do Estado em criar leis sociais e em buscar o apoio 

do proletariado.



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    Foto dos soldados getulis-    o

  tas em Joinville (SC), outu-  o

  bro de 1930. A Revoluo de   o

  30 contou com o apoio decisi-   o

  vo dos militares de todas as     o

  regies do pas.                 o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

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<143>

<P>

O governo provisrio (1930-1934)



  Assim que Getlio chegou  presidncia, a Constituio da 

Repblica Velha (1891) foi rasgada. Agora, o que valia eram as 

ordens dele. O Congresso Nacional estava fechado. Os 

governadores foram destitudos. No lugar deles, Vargas nomeava 

_interventores. Alguns tenentes que apoiaram Getlio ganharam 

cargos de interventores estaduais. Como no havia Congresso, as 

leis eram feitas diretamente pelo presidente, que assinava os 

decretos. Um dos primeiros decretos estabelecia que s seriam 

permitidos sindicatos leais ao governo.

  Leis decretadas, interventores estaduais, Congresso 

fechado... como voc percebe, o novo governo no era nada 

democrtico. Em So Paulo, polticos e intelectuais com idias 

liberais sentiram-se trados. Queriam que houvesse 

imediatamente eleies para escolher uma Assemblia 

Constituinte. Sonhavam com uma Constituio liberal, sem os 

vcios polticos da Repblica Velha. Para piorar as coisas, 

Getlio nomeou um interventor que era odiado pela populao 

para governar So Paulo. O interventor nem se quer era 

paulista! Comeou a agitao antigetulista na capital.

  As velhas oligarquias cafeeiras de So Paulo, ligadas ao PRP, 

aproveitaram sua insatisfao para apoiar o movimento. Queriam 

recuperar o antigo poder, que escapara das suas garras em 1930. 

No fundo, sonhavam com a volta da Repblica Velha.

  A tenso poltica aumentou. Uma passeata de protesto contra o 

interventor varguista terminou com estudantes paulistas mortos 

pela polcia. At que o Estado de So Paulo declarou guerra ao 

governo de Getlio. Desse modo eclodiu a {Revoluo 

Constitucionalista de So Paulo}, em 1932.

<P>

  Aconteceu uma guerra mesmo, com deslocamento de tropas, 

canhes, bombardeios areos, centenas de mortes. Mas So Paulo 

ficou isolado e o paulistas se renderam s tropas do governo 

federal.



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    Gravura dos militar com um       o

  canho. Mobilizao militar        o

  dos paulistas. A Revoluo        o

  Constitucionalista exigia a        o

  convocao de uma Assemblia       o

  Constituinte e o direito de os     o

  paulistas escolherem seu pr-       o

  prio governante. Teve o apoio      o

  da oligarquia do velho PRP, que   o

  sonhava em retornar o poder.        o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



<P>

O perodo liberal (1934-1937)



  Vitorioso, o governo de Getlio soube fazer concesses para 

os cafeicultores paulistas. Por exemplo, concedeu generosos 

emprstimos bancrios. Alm disso, admitiu a eleio de uma 

Assemblia Constituinte. Assim, em 1934 o Brasil ganhou uma 

nova Carta.

  A _Constituio _de _1934 era razoavelmente democrtica. 

Estabelecia equilbrio dos trs poderes (Executivo, 

Legislativo e Judicirio), eleies diretas e secretas para 

presidente (na Repblica Velha o voto no era secreto, da as 

oportunidades para os coronis controlarem os votos) e o voto 

feminino (outra novidade importante). Foram criados tribunais 

eleitorais para evitar as fraudes. Os estados continuavam com 

autonomia. Tambm foram includas algumas leis trabalhistas, o 

que mostra que a mentalidade do pas estava mudando em relao 

aos direitos dos operrios. (Lembre-se de que essa Constituio 

no foi feita por Getlio, mas por uma Assemblia Constituinte 

especialmente eleita para essa tarefa.)



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*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Figura: cartaz da Revoluo   o

  Constitucionalista solicitando   o

  ao povo que contribusse fi-      o

  nanceiramente para a luta         o

  contra o governo de Vargas.      o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

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<144>

Fascistas e comunistas



  Vimos no captulo anterior como os fascistas conquistaram o 

poder em vrios pases da Europa. No Brasil, l na dcada de 

30, tambm havia um partido fascista: a _Ao _Integralista 

_Brasileira. Seu chefe, Plnio Salgado.

  Os integralistas inspiram-se nos fascistas europeus at mesmo 

nas roupas e nos rituais. Vestiam fardas verdes (os comunistas 

os xingavam de {galinhas verdes}), seguiam o lema {Deus, ptria 

e famlia} e saudavam o chefe com o brado {Anaur!}.

  Os integralistas sonhavam com uma ditadura nacionalista que 

eliminasse os comunistas. Na poca, a Igreja catlica era 

politicamente conservadora. Muitos padres brasileiros aderiram 

ao integralismo crendo que s o fascismo preservaria a moral 

crist no Brasil.



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    Figura: desenho de um solda-  o

  do segurando a foto de Stlin   o

  e na outra mo a foto de         o

  Hitler. Nos anos 30, alguns   o

  tenentes aderiram ao comunismo   o

  (simbolizado por Stlin), ou-   o

  tros apoiaram o integralismo     o

  (simbolizado pelo lder fas-     o

  cista alemo Hitler).           o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



<P>

  No comeo, Vargas mostrou alguma simpatia pelos 

integralistas. Vrios de seus assessores eram simpatizantes do 

fascismo europeu.

  Em reposta s nuvens verdes do integralismo e do getulismo, 

formou-se uma frente popular. Era a {Aliana Nacional 

Libertadora (ANL)}, espcie de partido que unia comunistas, 

social-democratas e tenentes com idias de esquerda.



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    Foto: Comcio improvisado   o

  da ANL no Rio de Janeiro,   o

  1935, realizado nas escada-    o

  rias do Teatro Municipal,     o

  em frente  Cinelndia,        o

  local onde at hoje se rea-     o

  lizam os maiores comcios       o

  polticos da cidade.            o

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*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Foto: Lderes integralistas   o

   frente de uma marcha. Obser-   o

  ve os uniformes dos {camisas-     o

  verdes} e compare-os com os       o

  uniformes nazistas. As seme-     o

  lhanas so bvias, no           o

  concorda?                         o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



  A ANL no defendia o socialismo, mas propunha vrias 

mudanas radicais para poca. A primeira seria a reforma 

agrria latifndios confiscados pelo governo e distribudos 

para as famlias camponesas. Com isso, estaria extinto o 

domnio oligrquico que atrapalhava o desenvolvimento do 

capitalismo industrial no Brasil. Outra proposta era 

nacionalista. As empresas estrangeiras seriam proibidas de 

atuar na produo de minerais, eletricidade e petrleo. Algumas 

at seriam tomadas pelo governo brasileiro.

<P>

  Resumindo, a ANL era contra {o latifndio, o imperialismo, o 

fascismo integralista e Getlio Vargas}. A favor da reforma 

agrria, do nacionalismo, das reformas democrticas.

  Vargas percebeu que a ANL poderia incomodar. Ento, proibiu o 

funcionamento da ANL. As sedes espalhadas pelo Brasil foram 

fechadas e lacradas. Quem tentasse organiz-la clandestinamente 

iria para a cadeia.

  O pessoal da ANL ficou indignado. Parecia que Getlio e os 

integralistas em breve implantariam uma ditadura fascista no 

Brasil. Como evitar essa catstrofe? Os comunistas e os antigos 

tenentistas que aderiram  ANL concluram que s havia um 

jeito: derrubar o presidente  fora. Comearam a conspirar.

  Foi tudo mal planejado. Governo tinha espies no movimento. 

Os sindicatos operrios nem estavam avisados. Em 1935 a 

rebelio estourou, mas ficou limitada a uns poucos quartis em 

Recife, Natal e Rio de Janeiro. Getlio derrotou-a com 

facilidade.

  A revolta era da ANL, mas Getlio achou melhor botar a culpa 

toda no PCB. Por isso, chamou a rebelio de {Intentona 

Comunista de 35}, nome usado at hoje.



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    Foto: Logo depois da revol-     o

  ta da ANL, a polcia vigiava      o

  todo o Rio de Janeiro. Observe   o

  os policiais revistando os au-      o

  tomveis na praia de Botafogo.     o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



  Depois da derrota da ANL em 1935, o Partido Comunista 

praticamente deixou de existir. Quase todos os seus dirigentes 

e militantes foram presos, incluindo Lus Carlos Prestes (veja 

o texto {Olga Benrio: idealismo, amor e tragdio}, a seguir).



<P>

Olga Benrio: idealismo, amor e tragdia



  Olga Benrio nasceu na Alemanha. Apesar de vir de uma famlia 

de posses, muito jovem ela j militava no Partido Comunista. 

Suas atividades revolucionrias puseram a polcia nos seus 

belos calcanhares. Como tantos comunistas perseguidos na poca, 

foi obrigada a fugir para a URSS.

  Em moscou, o _Komintern (Internacional Comunista) coordenava 

as aes revolucionrias em todo o mundo e designou Olga para 

uma misso supersecreta: escoltar um revolucionrio 

sul-americano que iria comandar uma revolta anti-fascista em 

seu pas. Naquela poca, anos 30, os comunistas do mundo 

inteiro estavam muito unidos e participavam das lutas dos 

companheiros em outros pases. (Era o ideal internacionalista.)

<P>

  O revolucionrio que Olga iria acompanhar era Lus Carlos 

Prestes. J falamos dele: foi um capito do exrcito, de ideais 

tenentistas, que comandou a Coluna Prestes. Depois de estudar 

as obras de Marx, Engels e Lnin, Prestes abandonou o 

tenentismo e se tornou comunista. Agora ele voltava 

secretamente ao Brasil para lutar contra Vargas na revolta 

liderada pela ANL.

  Um pouco de romantismo: na viagem secreta ao Brasil, com 

passaportes falsos, Olga e Prestes se apaixonaram de verdade e 

passaram a viver juntos, como marido e mulher.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Foto: Olga Benrio Prestes.   o

  Alem, judia, brasileira,          o

  internacionalista.                  o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



<P>

  A revolta da ANL em 1935, como vimos, foi um fracasso. 

Getlio mandou prender milhares de pessoas. O chefe da polcia 

getulista era o terrvel Filinto Mller. Nazista assumido, 

torturava barbaramente os presos que caam sob suas botas.

  Depois de uma caada implacvel pelas ruas do Rio de Janeiro, 

Filinto Mller capturou Prestes e Olga Benrio. Prestes foi 

condenado  priso e Olga, devolvida  Alemanha. Na poca, a 

Alemanha j tinha cado sob o jugo dos nazistas. Sendo 

comunista, Olga estava com a cabea posta a prmio. Para 

piorar, ela era judia. E voc sabe que os nazistas odiavam os 

judeus. Pela lei brasileira, Olga no poderia ser extraditada 

(expulsa do pas) porque estava esperando uma filha de Prestes. 

Mesmo assim, Getlio ordenou que ela fosse entregue  Gestapo 

(polcia secreta nazista). Olga teve a filha quando era 

prisioneira num campo de concentrao. Em 1942 ela foi 

executada na cmara de gs.



<146>

O golpe de 37 e o Estado Novo



  Getlio Vargas ainda parecia respeitar a Constituio, que 

previa a eleio direta de um novo presidente no seu lugar. De 

repente, em 1937, o governo anunciou a descoberta de {um 

terrvel compl comunista para tomar o poder}: o _Plano _Cohen. 

Na verdade, um plano forjado pelos integralistas com pleno 

conhecimento de Getlio. Mero pretexto para o golpe 

antidemocrtico.

  Apoiado pela Foras Armadas, Getlio cancelou as eleies e 

fechou o Congresso. Pelo rdio, os brasileiros ouviram uma 

coisa bem diferente da voz dos sambistas: havia uma nova 

Constituio. Era imposta mais uma ditadura.



<P>

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    Figura: barzinho na Lapa,      o

  centro do Rio de Janeiro, anos   o

  30. Era o local de encontro      o

  dos sambistas, pintores,           o

  bomios e escritores. Entre um    o

  copo de cerveja e um olhar         o

  para a morena que passa na         o

  rua, um verso apaixonado.          o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieieie

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A ditadura do Estado Novo (1937-1945)



  A _Constituio _de _1937 passava a valer. Foi copiada da 

Constituio da Polnia fascista. Da o apelido de polaca. 

Bastante autoritria: o poder Executivo ficou superpoderoso e 

os estados perderam toda a autonomia diante do poder central 

(Rio de Janeiro).

<P>

  Durante a ditadura do Estado Novo (1937-1945) no havia 

partidos polticos nem Congresso Nacional. Em eleies, claro, 

nem se falava. Os estados eram governados por interventores 

nomeados diretamente por Getlio. A imprensa estava totalmente 

censurada, ningum podia criticar o governo. As greves foram 

proibidas. Os sindicatos controlados pelo Estado. As prises 

ficaram cheias de inimigos do regime.

  A ditadura de Vargas era bem parecida com a de Mussolini, na 

Itlia, mas no era fascista. Os prprios integralistas foram 

frustrados. Tinham apoiado o golpe de 1937 acreditando que esse 

seria a vspera de sua tomada do poder. Mas Getlio mandou 

proibir o integralismo tambm. Os integralistas tentaram se 

revoltar em 1938, mas Getlio os derrotou facilmente. Generoso 

com o ex-aliado, Vargas permitiu que Plnio Salgado voasse para 

o exlio no estrangeiro. Os outros integralistas foram para a 

cadeia.



<F->

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    Caricatura de J. Carlos       o

  (1937) mostra Getlio Vargas    o

  na frente do Palcio do Catete   o

  (residncia oficial do presi-      o

  dente). Ele espalha cascas de     o

  banana: quem tentar chegar ao      o

  palcio (simbolicamente, quem      o

  quiser ser presidente no lugar     o

  dele) vai acabar escorregando      o

  e levando um tombo. A capaci-     o

  dade de manobra e de manipula-     o

  o poltica de Vargas era fa-    o

  mosa. Em 1937, ele fechou o      o

  Congresso e implantou a           o

  ditadura do Estado Novo.         o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieieie

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<147>

<P>

O getulismo na economia



  Vamos estudar um pouco a situao da economia brasileira no 

tempo de Getlio. Voc se lembra de que a Revoluo de 1930 

veio logo depois da crise de 29? Pois , e voc tambm lembra 

como os pases capitalistas reagiram  crise mundial? Isso 

mesmo, ampliando a interveno do Estado sobre a economia, 

conforme as receitas Keynesianas. Vargas seguiu o mesmo 

caminho.

  Guarde na memria esse fato: a partir de Getlio Vargas, o 

Estado brasileiro passou a intervir com toda a fora na 

economia. O Estado tornou-se um dos grandes motores que 

empurraram a economia brasileira para frente.

  At o final dos anos 50, no Brasil o principal setor da 

economia brasileira ainda seria a agroexportao, especialmente 

a do caf. Desde o comeo, o governo varguista continuou dando 

toda a fora para os latifundirios. Mas a grande novidade era 

que {o Estado passou a ter como um de seus objetivos bsicos o 

apoio  industrializao}.

  No dava mais para o Brasil se conformar s com a 

agroexportao. Precisvamos de indstrias. Mas a burguesia 

industrial brasileira ainda era jovem e fraca. No tinha muita 

capacidade de investir. Com a crise mundial, os investidores 

estrangeiros se desinteressaram de abrir muitas empresas por 

aqui. Quem  ento que poderia investir macio para desenvolver 

o capitalismo industrial no Brasil? Acertou: o Estado. Da que 

foram criadas _empresas _estatais (que pertencem ao governo) 

nos setores de _indstria _de _base e de _infra-estrutura. Por 

exemplo, a Companhia Siderrgica Nacional (CSN), em Volta 

Redonda, para forjar milhes de toneladas de ao, a Companhia 

Vale do Rio Doce, de minerao, a Companhia Hidreltrica do So 

Francisco (que construiu  a usina de Paulo Afonso), a Companhia 

de lcalis (produtos qumicos).



Esfriando o caf



  Principais expostaes brasileiras 1935-39



  Caf: 47%

  Algodo: 19%

  Cacau: 5%

  Acar: 2%



  Neste perodo, para cada 100 libras que o Brasil ganhava 

exportando, 47 libras vinham da venda do caf para o 

estrangeiro. O pas tambm exportava algodo, cacau, acar, 

tabaco, mate. A indstria ainda era fraca e no exportvamos 

nenhum produto manufaturado.



<P>

  Participao do caf nas exportaes



  1925-29: 73%

  1930-33: 69%

  1934-39: 48%

  1940-45: 33%

  1946-50: 42%



  O caf ainda era disparado o produto mais importante de 

exportao do Brasil. Mas ainda ele estava diminuindo sua 

importncia em relao aos outros produtos exportado.  bom 

lembrarmos que tambm havia uma importante produo agrcola 

voltada para o mercado interno: feijo, milho, arroz, 

mandioca, etc.



<148>

Fim da Era Vargas?



  A partir do governo do presidente Fernando Collor 

(1989-1992), seguindo por Itamar Franco (1992-1994) e Fernando 

Henrique Cardoso (1995-), o Estado comeou a diminuir sua 

participao na economia. Privatizaram-se vrias estatais, ou 

seja, as empresas do governo foram vendidas para particulares. 

Por exemplo, a Usina de Volta Redonda (CSN) e a Companhia de 

lcalis. Por isso  que se disse que {a era varguista na 

economia finalmente estava chegando ao fim}, ou seja, estava se 

abandonando a participao intensa do Estado na economia. L no 

captulo 19 veremos isso em detalhes.

  A viso econmica de Getlio Vargas era nacionalista: ele 

queria proteger o empresariado brasileiro da concorrncia 

estrangeira. Na poca, os jovens empresrios apreciaram essa 

proteo porque puderam crescer tendo o mercado interno 

reservado para suas empresas, sem medo da concorrncia das 

empresas estrangeiras.

  O governo apoiava abertamente os empresrios industriais: 

financiava (emprestava dinheiro), cobrava menos impostos para 

quem investisse em fbricas, aumentava as tarifas alfandegrias 

(impostos sobre importao) para acabar com a concorrncia dos 

produtos estrangeiros.

  Detalhe importante: os investimentos do Estado deram 

prioridade total  indstria na regio Sudeste. Os estados de 

So Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais foram os 

privilegiados. O Norte e o Nordeste continuariam agrrios, 

atrasados, dominados pelo latifndio e pelas oligarquias 

locais.

<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

  Na Repblica Velha, os funcio-  o

  nrios pblicos eram nomeados      o

  pelos poderosos. Vargas quis      o

  criar um corpo de burocratas       o

  profissionais e eficientes, que    o

  conquistariam os cargos por con-   o

  curso (fazendo provas especi-      o

  ais). A charge de Raul Seth     o

  (1937) satiriza o mau atendi-     o

  mento numa repartio (tomam       o

  cafezinhos enquanto o povo es-     o

  pera). Exagero: a maioria  s-   o

  ria e trabalhadora.                o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



Tentando uma nova vida



  No Nordeste dominado pelo latifundio, os camponeses pobres 

passavam fome. Quando vinha a seca, a coisa piorava de vez. Por 

isso, desde 1930, centenas de militares de nordestinos emigram 

para as grandes cidades do Sudeste. Entre 1930-45 mais de meio 

milho foi para So Paulo.

  Trabalhavam na construo civil e nas indstrias por salrios 

muito baixos. A maioria morava em favela, em barracos feitos de 

restos de madeira. Analfabetos, doentes, famintos e dando duro. 

Mesmo assim, a vida conseguia ser melhor do que no serto. A 

riqueza de So Paulo e do Rio de Janeiro foi construda por 

seus braos.



<P>

<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Famlia de retirantes nor-     o

  destinos, pintada por Cndido    o

  Portinari. Como tantos inte-    o

  lectuais nos anos 30 e 40,      o

  Portinarei foi comunista.        o

  Nesta obra expressionista,       o

  ele deforma as figuras para       o

  ressaltar o sofrimento. Repare   o

  nos ps e nas linhas duras e      o

  quebradas, pessoas secas como     o

  a caatinga nordestina.            o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



<149>

O populismo varguista



  Voc j deve ter notado que Getlio Vargas at hoje  um nome 


conhecido por muitos brasileiros. Os mais velhos ainda se 

recordam de alguma coisa do tempo dele. Uns falam bem, outros 

criticam. Por que opinies to diferentes? Bem, a histria  

cheia de contradies mesmo. Dificilmente as pessoas concordam 

com tudo.

  A maneira de Getlio Vargas governar foi tpica da Amrica 

Latina nas dcadas de 30 a 50. Chamava-se _populismo. Na 

Argentina, por exemplo, o equivalente populista a Getlio foi o 

presidente Pern (veja o texto {O Getlio argentino: Pern} a 

seguir}).

  O populismo varguista tambm  chamado de _trabalhismo. 

Portanto, ateno amigo leitor: trabalhismo tem a ver com a 

maneira especfica (tpica dele) de Getlio lidar com a questo 

dos trabalhadores.

  Quando Vargas assumiu o governo, no meio da crise de 1929, 

ele tinha um problema grave para resolver: com o 

desenvolvimento da indstria, aumentaria o nmero de 

trabalhadores assalariados. Como fazer para que os operrios 

no dessem ouvidos aos comunistas e aos anarquistas? Como 

evitar que fizessem greves ou, pior, que sonhassem com uma 

revoluo socialista igual  da Rssia? Como fazer para que o 

proletariado fosse obediente, disciplinado, produtivo?

  Getlio resolveu esse problema de duas maneiras. A primeira 

j era tradicional desde a Repblica Velha: reprimindo. Assim, 

as greves foram proibidas, os comunistas e os anarquistas 

postos na penitenciria, os sindicatos obrigados a se 

subordinar ao Ministrio do Trabalho.

  A segunda maneira era mais sutil e tpica do populismo. 

Getlio gostava de dizer que na vida e na poltica ns temos de 

ceder os anis para conservar os dedos. Assim, Vargas props um 

_pacto _populista aos trabalhadores: {Em vez de lutar por seus 

direitos, vocs trabalham obedientes. Confiem em mim. Em troca, 

eu vou _doar _direitos _trabalhistas para vocs}. Sacou a 

jogada? O pacto paulista era uma troca: os operrios se 

comprometiam a trabalhar duro e a no fazer greves nem 

protestar porque confiavam que o governo faria, sempre que 

possvel, algumas leis de proteo social.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Figura: Propaganda elaborada   o

  pelo DIP mostra {o amor de       o

  Vargas pelas crianas}. O go-    o

  verno Getlio procurou refor-     o

  mular reformular a educao        o

  para formar mo-de-obra espe-      o

  cializada e disciplinada.          o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto: Operrios da Siderr-   o

  gica de Volta Redonda desfilam   o

  diante de Getlio Vargas         o

  (1942). Repare na expresso      o

  orgulhosa nos rostos.              o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



<150>

  As leis trabalhistas de Getlio ficaram clebres: a jornada 

de trabalho diria ficou reduzida a oito horas, proibiu-se 

empregar crianas com menos de 14 anos, os patres foram 

obrigados a pagar o salrio no ms de frias, institui-se o 

salrio mnimo (1940). Os velhos tambm ganharam segurana com 

a criao dos institutos de previdncia social do governo, que 

pagavam penses aos aposentados (na Repblica Velha, os 

operrios no se aposentavam. Velho pobre, sem ajuda de 

parente, virava mendigo).



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Foto: Getlio Vargas, com    o

  charuto na boca, distribui       o

  agrados ao povo. Contradies   o

  populistas: amizade e domnio     o

  sobre os trabalhadores.           o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



  As leis trabalhistas que eram anunciadas todos os anos, foram 

reunidas na {Consolidao das Leis do trabalho (CLT)} de 1943.

  Claro que muitas vezes os patres no cumpriam a lei. Os 

fiscais do governo, que deviam vigiar, eram corrompidos pelos 

empresrios. Os sindicalistas no podiam reclamar porque 

estavam com a boca tapada pelo governo.

  Um detalhe importantssimo: {as leis trabalhistas de Getlio 

s valiam para os trabalhadores urbanos}. Na poca, mais de 60% 

dos brasileiros viviam no campo. Para eles, as leis 

trabalhistas no valiam nada. Os latifundirios podiam 

continuar dormindo tranqilos. Getlio jamais falou em fazer 

reforma agrria.



O Estado como rbitro do conflito de classes



  A propaganda oficial mostrava o Estado como uma fora neutra, 

que promovia a {paz e a harmonia entre o capital e o trabalho, 

entre os patres e os empregados}. Ou seja, em vez de promover 

as lutas de classes, os trabalhadores deveriam acreditar que o 

governo era um juiz imparcial trabalhando para o bem de todas 

as classes.

<P>

  Isso era a imagem oficial. Na prtica, o Estado varguista no 

era to neutro assim. Por exemplo, ao tomar uma deciso 

importante, Getlio gostava de ouvir os empresrios. Em 

compensao, os sindicalistas que contrariassem Vargas podiam 

terminar na cadeia.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Figura mostrando Getlio      o

  Vargas como juiz de um fute-     o

  bol. De um lado os empresrios   o

  e de outro os sindicatos. O      o

  empresrio derruba o sindicato    o

  na disputa da bola. Diz que      o

  foi pnalti do sindicato. E      o

  Getlio fica a favor dos         o

  empresrios.                      o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



<151>

  A essa altura voc j deve ter percebido toda a dimenso do 

controle que Vargas exercia sobre o movimento operrio. {Ele 

tinha retirado do proletariado uma coisa fundamental para todo 

o ser humano: a capacidade de lutar por seus direitos}. 

Incentivou a crena de que as pessoas devem aceitar tudo como 

est e, passivamente, aguardar um governante {bonzinho} 

anunciar a mudana. Essa era a base do pacto populista: 

trabalhar com disciplina e no lutar por direitos em troca das 

leis que o Estado poderia fazer. Mas no devemos acreditar que 

os trabalhistas foram {enganados}. Com certeza tinham 

conscincia da barganha que faziam.

  Getlio s permitia a existncia dos sindicatos _pelegos. 

Pelego  o operrio ou o sindicato que, em vez de lutar ao lado 

dos trabalhadores, favorece os patres ou o governo. D para 

entender o motivo de ele aceitar os sindicatos pelegos, no  

mesmo?

  O Estado Novo se valia do {DIP (Departamento de Imprensa e 

Propaganda)}, um rgo que fazia a censura e a publicidade 

poltica. Nenhum jornal noticiava um fato desfavorvel ao 

governo por uma razo muito simples: era proibido. Qualquer 

jornal ou noticirio de rdio s trazia uma informao: {Como o 


Brasil est ficando maravilhoso graas ao grande presidente 

Vargas}. E assim, desde crianas na escola, a propaganda 

poltica tentava convencer os brasileiros de que Getlio era o 

{pai dos pobres}.

  O dia 1 de maio passou a ser feriado. No Rio de Janeiro, 

militares de operrios desfilavam carregando enormes retratos 

de Getlio, agradecendo ao {pai dos pobres} por tudo bom que 

acontecia no pas.



A guerra e as mudanas



  A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) mudou a face do mundo. 

As potncias fascistas (Alemanha, Itlia e Japo) enfrentaram 

os Aliados (EUA, Inglaterra, Frana, URSS). O Brasil participou 

da guerra contra os pases do Eixo (fascistas).

<P>

  Terminando o conflito, a opinio pblica brasileira rejeitava 

a ditadura do Estado Novo. Vargas acabou afastado do governo em 

1945. O pas se redemocratizava. Veremos isso em detalhes no 

prximo captulo.



O Getlio argentino: Pern



  A Argentina tambm teve seu presidente populista. Foi Juan 

Domingo Pern. Ele era o coronel do exrcito e chegou ao 

governo depois de um golpe de Estado (1943) dado por militares 

que tinham simpatia por idias de extrema direita. Usou seu 

cargo de ministro para fazer algumas leis trabalhistas. Fez o 

maior sucesso e em 1946 foi eleito presidente da Repblica. 

Portanto, chegou ao poder alguns anos depois de Vargas no 

Brasil. Aos poucos, implantou uma ditadura.

<P>

  O governo peronista tinha muita coisa parecida com o de 

Vargas. D s uma olhada: foi autoritrio, perseguindo a 

oposio; aumentou a interveno do Estado sobre a economia; 

apoiou a industrializao; foi nacionalista, inclusive com o 

governo tomando para si as empresas de energia eltrica e as 

ferrovia; fez leis trabalhistas para ganhar a confiana do povo 

(os {descamisados}, como Pern chamava os pobres); se apoiou 

sobre os sindicalistas pelegos; criou uma mquina de propaganda 

para que a populao venerasse Pern como o grande protetor da 

nao.

  Evita, esposa de Pern, contribuiu muito para a boa imagem 

que os argentinos tinham do presidente. Ela era bonita e 

sedutora. Promovia obras de caridade que encantavam os pobres. 

Mas o povo ignorava o outro lado da {me dos descamizados}: 

vaidosa, ftil, que gastava rios de dinheiro em jias, festas 

e roupas.

<P>

  Pern foi afastado do governo em 1955. Falaremos disso no 

captulo 13. Espere um pouco.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto: Pern e sua sedutora   o

  esposa, Evita.                  o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



<152>

Texto Complementar



  A historiadora Snia Regina de Mendona, professora da 

Universidade Federal Fluminense, em Niteri, explica as 

caractersticas da industrializao brasileira no tempo de 

Getlio Vargas (1930-1945):



  {(A industrializao no tempo de Getlio Vargas) teve como 

primeira caracterstica (...) o surgimento de novos setores 

produtivos. No lugar dos tradicionais ramos de tecidos, 

vesturios e produtos alimentcios, cresceriam, doravante, 

setores como a metalurgia, mecnica, cimento, material 

eltrico e transportes, alm das indstrias qumicas e 

farmacuticas.

  Uma srie de bens industriais que at aquele momento eram 

importados pelo pas passaria, da por diante, a ser produzidos 

internamente. A esse processo damos o nome de substituio de 

importaes. Esta seria a _marca _registrada da histria da 

industrializao brasileira at meados da dcada de 1950.

  (...) O Estado seria o principal agente dessa transformao. 

(...) A principal tarefa agora era implantar um setor 

industrial que produzisse bens de produo (que servem para 

produzir outros bens. Por exemplo, fbricas de ao, mquinas, 

tratores, peas, etc.), isto , um setor de indstrias de base 

ou pesadas. Somente com suas criao haveria chances de xito 

para o processo de substituio de importaes, sem o pas 

precisar importar do exterior tudo o que necessitasse em 

matria de equipamentos ou matrias-primas industriais (...).

  A burguesia brasileira no tinha condies de aplicar seus 

recursos nesse tipo de empreendimento. (...) O empresariado 

voltou-se para o Estado e dele exigiu uma postura 

intervencionista naqueles setores onde a inciativa privada 

fosse insuficiente.}



  (Mendona, Snia. {A industrializao brasileira}. So Paulo: 


Moderna, 1996. pp. 40-44.)



  A partir do que  apresentado pela autora do texto acima, 

procure responder:



  1. Alm da indstria tradicional (tecidos, roupas, 

alimentos), quais foram os setores novos que se desenvolveram a 

partir de Vargas?



<P>

  2. Em que perodo da histria do Brasil surgiram as 

indstrias tradicionais (roupas, comida em lata, bebidas, 

vidros, etc.)?



  3. O que foi o processo de {substituies de importaes}?



  4. O que produzem as indstrias de base?



  5. O surgimento das indstrias de base no Brasil foi 

resultado do investimento de empresrios nacionais, empresrios 

estrangeiros ou do Estado?



  6. Por que a burguesia brasileira no tempo de Vargas no 

investiu no setor de bens de capital?



  7. As empresas estatais no tempo de Getlio investiam em 

todo os setores da economia?



<153>

<P>

Exerccios de Reviso



  1. {O lema  lavoura, hoje, com o governo. E, se no formos 

atendidos, amanh ser a lavoura sem o governo. E, depois, a 

lavoura contra o governo.} (Alfredo Pujol, cafeicultor 

paulista, jornal _Dirio _Nacional, 3/12/1929.) Qual foi o 

efeito da crise mundial de 1929 sobre as exportaes 

brasileiras e sobre o pacto poltico {caf com leite}?



  2. Logo no comeo do governo, Getlio Vargas baixou um 

decreto que determinava: {O chefe do governo provisrio (...) 

decreta: Art. 1 O governo provisrio exercer 

discricionariamente (com amplos poderes) (...) as funes e 

atribuies, no s no poder Executivo, como tambm do poder 

Legislativo (...).  confirmada a dissoluo do Congresso 

Nacional (...). Ficam suspensas as garantias constitucionais e 

excludos da apreciao judicial os decretos e atos do governo 

provisrio ou dos interventores federais (...).} (Decreto de 

11/11/1930.) Descreva como ficou a situao poltica depois da 

Revoluo de 30, destacando como ficou o Congresso, a validade 

da Constituio, as eleies e o governo nos estados.



  3. {A Revoluo (de 30) no se fez para assumir a tutela da 

Nao, seno para entregar  nao o governo de si mesma. (...)
 

No  possvel aquiescer a delongas (concordar com demoras) 

inteis na convocao da assemblia constituinte.} (Manifesto 

do Partido Democrtico, publicado no jornal {O Estado de S. 

Paulo}, 15/1/1932.) {O Partido Republicano Paulista, PRP, e o 

Partido Democrtico vm anunciar (...) que est feita a unio 

sagrada dos paulistas em torno dos dois problemas: (...) a 

pronta reconstitucionalizao do pas e a restituio da 

autonomia a S. Paulo (...).} (Manifesto de 16/2/1932.) Explique 

o que foi a Revoluo Constitucionalista de 1932. Destaque onde 

houve a revolta, quais foram os principais motivos, e quem 

venceu.



  4. {A Constituio assegura a brasileiros e estrangeiros 

residentes no pas a inviolabilidade dos direitos concernentes 

 liberdade,  subsistncia,  segurana individual e  

propriedade (...).} (Constituio de 1934, Artigo 113.) 

Caracterize a Constituio de 1934, destacando: o direito de 

voto (quem podia votar), o modo de eleger o presidente e as 

leis sociais.



  5. Plnio Salgado, chefe da Ao Integralista Brasileira, 

visitou a Itlia em 1932, poca do governo de Mussolini. Veja o 

que Plnio Salgado escreveu a respeito: {E essa  a Roma que 

eu sado, roteiro do mundo, inspirao dos povos ameaados pela 

dissoluo. Roma que realizou o Estado Fascista, que paira 

acima das competies de classes (...) acima da sociedade e 

acima do indivduo (...); que policiou a liberdade para evitar 

que ela desaparea (...)}. (Artigo do jornal _A _Razo, 

24/4/1932.) Explique quem eram os integralistas, o que 

propunham e qual a relao deles com Vargas.



  6. Em seu programa bsico, a ANL propunha: {(...) suspenso 

definitiva do pagamento das dvidas imperialistas do Brasil 

(...) nacionalizao imediata de todas as empresas 

imperialistas (...) proteo a todos os pequenos e mdios 

proprietrios e lavradores (...) entrega das terras dos grandes 

proprietrios aos camponeses (...) constituio de um governo 

popular}. O que era a ANL (Aliana Nacional Liberadora)? Quais 

eram seus objetivos? Voc acha que as propostas da ANL deveriam 

ser adotadas ainda hoje? Justifique sua resposta.



<154>

<P>

  7. {(...) Com a Aliana (Nacional Libertadora) estaro todos os 

homens de cor do Brasil, os herdeiros das tradies gloriosas 

de Palmares, por que s a ampla democracia, de um governo 

realmente popular, ser capaz de acabar para sempre com todos 

os privilgios de raa, de cor ou de nacionalidade, e dar aos 

pretos do Brasil a imensa perspectiva da liberdade e da 

igualdade, livre de quaisquer preconceitos reacionrios (...).} 

(Lus Carlos Prestes, manifesto de apoio  ANL, 6/7/1935.) 

Analise o texto e responda: qual era a posio da ANL a 

respeito dos direitos dos negros?



  8. Explique o que foi a Intentona Comunista de 1935.



  9. Caracterize politicamente a ditadura do Estado Novo 

(1937-1945).



<P>

  10. Durante algum tempo, Vargas conviveu bem com os 

integralistas. O que aconteceu com eles a partir do golpe de 

1937 que implantou a ditadura do Estado Novo?



  11. {(O governo) h de investigar os meios que proporcionem 

(...) a consolidao de normas da polcia industrial e 

comercial, visando o fortalecimento econmico do Brasil (...). 

No caso das indstrias cuja estabilidade exija, no interesse 

coletivo, uma forada limitao da concorrncia, a inveno 

deve assegurar a continuidade e a regularidade da produo 

(...).} (Ministros Marcondes Filho, 1944.) Analise o discurso 

do ministro de Getlio e responda: ele prope o _laissez _faire 

ou a interveno do Estado sobre a economia? Depois, explique 

qual foi o papel do Estado getulista em relao ao 

desenvolvimento da economia nacional.



<P>

  12. {O plano acima de que se poderia denominar plano para a 

organizao da indstria siderrgica no Brasil, viria dotar 

nosso pas de uma forte _ferramenta _econmica que concorreria 

para dar-lhe um grande surto de progresso.} (Relatrio da 

Comisso Preparatria do Plano Siderrgico, 20/10/1939.) Quais 

foram os principais tipos de empresas estatais criadas por 

Getlio? Por que os empresrios brasileiros no investiam 

nesses tipos de empresas?



  13. Como Getlio Vargas se posicionava diante do nacionalismo 

econmico?



  14. A historiadora ngela de Castro Gomes escreveu, a 

respeito do Estado Novo, que {a construo de um pacto entre 

trabalhadores e Estado  interpretada (...) no s como o 

produto da troca de benefcios sociais por obedincia, como 

igualmente um contrato pelo qual dois atores se reconhecem 

politicamente}. O que foi o pacto populista que Getlio props 

aos trabalhadores? Comparado com a Repblica Velha, o que mudou 

na relao entre o governo e os trabalhadores?



  15. {(...) o contrato individual de trabalho pressupe a 

regulamentao legal de tutela do empregado (...).} (Ministro 

Alexandre Marcondes Filho, apresentao do projeto da CLT, 

19/4/1943.) O que foi a CLT?



  16. {Art. 2: o DIP tem por fim: a) centralizar, coordenar, 

orientar e superintender a propaganda nacional (...) fazer a 

censura do Teatro, do Cinema, de funes recreativas e 

esportivas, (...) da radiodifuso, da literatura social e 

poltica, e da imprensa (...) promover, organizar, patrocinar 

ou auxiliar manifestaes cvicas e festas populares com 

intuito patritico (...).} (Lei de criao do DIP, 27/12/1939.) 

Quais eram os objetivos do DIP (Departamento de Imprensa e 

Propaganda)?



<155>

  17. {O colapso das oligarquias liberais ou autoritrias 

constitudas no sculo Xix, juntamente com as crises do 

imperialismo europeu e norte-americano, abrem novas 

possibilidades  reorganizao do aparelho estatal, isto , do 

Estado como a sociedade nacional. A as massas aparecem como 

um elemento poltico importante e s vezes decisivo. (...) O 

populismo corresponde a uma modalidade particular de 

organizao e desenvolvimento das relaes e contradies de 


classes sociais na Amrica Latina.} (Octavio lanni, socilogo 

brasileiro, trecho de {A formao do Estado populista na 

Amrica Latina}.) Compare o governo de Pern, na Argentina, com 

o de Vargas e mostre os aspectos comuns aos dois.



<P>

Reflexes Crticas



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Cartazes: A duplicidade da    o

  condio feminina dos anos 20    o

  e 30. A mulher dona de casa     o

  desnudada na praia, consumida     o

  e consumidora, e a intelectual    o

  engajada (Pagu foi presa e tor-  o

  turada pela polcia getulista).   o

  Seria possvel ser as duas ao    o

  mesmo tempo? E hoje? Essa se-   o

  parao ainda existe? Qual       o

  dos dois {modelos} predomina?     o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



  1. A propaganda poltica  um recurso utilizado pelos 

governos de todos os pases. Selecione algumas peas de 

propaganda do governo (se no for possvel trazer para a sala 

de aula, basta que todos os colegas se lembrem delas; podem ser 

cartazes de rua, mensagens em jornais e revistas ou 

apresentaes na tev). Analise essas peas: que tipo de 

argumentos o governo usa para convencer a populao? Qual o 

objetivo? O governo deve fazer publicidade?



  2. Os sindicatos de trabalhadores devem ter total liberdade 

para agir, inclusive para decretar greves quando acharem 

necessrio? Ou devem se submeter s regras do governo?



  3. O Estado brasileiro ainda deve interferir na economia para 

dinamizar o crescimento econmico? Ou ele no  mais capaz 

disso? Debata.



  4. Faa uma pesquisa para identificar as empresas estatais 

que foram privatizadas recentemente (a partir do governo 

Collor).



          ::::::::::o:::::::::
